A Arquidiocese de Teresina lançou, na manhã desta quinta-feira (19), na Residência Episcopal, a Campanha da Fraternidade 2026, que tem como tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). A iniciativa propõe uma ampla mobilização durante a Quaresma para discutir o direito à moradia digna e cobrar soluções concretas diante do déficit habitacional no Brasil, no Piauí e na capital.
Ao apresentar a campanha, o arcebispo de Teresina, Dom Juarez Marques, destacou que a proposta nasce da fé cristã e da espiritualidade quaresmal. “O que nos move é a nossa fé. A Palavra de Deus nos inspira. ‘Ele veio morar entre nós’ nos recorda o mistério da Encarnação. Deus assumiu a nossa condição para nos elevar à dignidade de filhos e filhas”, afirmou.
Segundo ele, a Campanha da Fraternidade é, antes de tudo, um convite à conversão pessoal e comunitária. “A espiritualidade da Quaresma nos chama à penitência, à oração e à caridade fraterna. E essa conversão também passa pelo olhar atento à realidade social. Quando os problemas se tornam absurdos, os desafios se tornam apaixonantes”, disse, acrescentando que a missão da Igreja é iluminar a realidade com a Palavra e provocar consciência.
Dom Juarez reforçou que refletir sobre moradia é refletir sobre justiça social e dignidade humana. “Proporcionar moradia digna é garantir um direito fundamental, inclusive previsto na Constituição. Não podemos nos conformar com o aumento das pessoas em situação de rua ou com habitações inadequadas”, pontuou.
Ele ressaltou que a moradia vai além de um teto. “É mais do que um espaço físico. É o aconchego, é o lugar do qual podemos dizer ‘estou de volta’. É onde a família encontra segurança e estabilidade”, afirmou.
O arcebispo também chamou atenção para os desafios históricos da capital. “Teresina cresceu de forma muito horizontal, com muitas ocupações ao longo das décadas. Muitos pobres não ocupam por escolha, mas porque não têm alternativa”, declarou, defendendo diálogo, políticas públicas eficazes e regularização fundiária.
A campanha é lançada em um cenário de dados preocupantes. No Brasil, cerca de 6,2 milhões de famílias vivem sem moradia adequada, e aproximadamente 328 mil pessoas estão em situação de rua. No Piauí, o déficit habitacional chega a 124,8 mil domicílios, o equivalente a 12,1% das moradias ocupadas. Em Teresina, a estimativa da Prefeitura aponta para um déficit entre 35 mil e 40 mil residências.
Durante a solenidade, o prefeito de Teresina, Silvio Mendes, classificou o problema como grave e destacou o impacto social da política habitacional. “É um investimento caro do ponto de vista financeiro, mas barato do ponto de vista social”, afirmou.
Segundo ele, o município tem atuado na elaboração de projetos, na seleção de famílias por critérios socioeconômicos e na disponibilização de áreas, mas depende majoritariamente de recursos federais. “O município tem menor capacidade de investimento. Geralmente faz os projetos e a seleção da população mais carente, mas o financiamento maior vem do governo federal”, explicou.
O prefeito também detalhou ações voltadas às pessoas em situação de rua. “Hoje temos mais de 700 pessoas nessa condição em Teresina. Fizemos o mapeamento, utilizamos o CadÚnico para identificar as famílias e garantimos ao menos uma refeição diária”, relatou. Ele citou ainda a criação de um banheiro móvel adaptado em uma ambulância para atender essa população. “São iniciativas que não resolvem tudo, mas amenizam o sofrimento”, disse.
Silvio Mendes chamou atenção para o crescimento desordenado da cidade e o alto custo da expansão urbana. “Quando você espalha a cidade, tudo encarece: transporte, escola, ambulância. E é proibido gastar dinheiro público em área de risco. Precisamos planejar melhor”, afirmou.
Representando o governador Rafael Fonteles, a secretária de Relações Sociais do Governo do Piauí, Núbia Lopes, destacou que a temática da campanha reforça um dever institucional do poder público.
“Moradia digna é condição para que a família viva com amor, com segurança, com acesso à educação, saúde e trabalho. É um direito garantido na Constituição e uma missão institucional nossa”, afirmou.
Ela ressaltou a importância da articulação entre governo federal, estado, municípios e sociedade civil. “O programa Minha Casa, Minha Vida é o maior instrumento de política habitacional, mas é preciso mapear corretamente quem realmente precisa. E as igrejas, pastorais e movimentos sociais têm papel fundamental nesse processo”, disse.
Núbia Lopes citou que o Estado tem recebido demandas de famílias que ocupam áreas públicas e privadas e buscado encaminhamentos dentro dos trâmites legais. “A burocracia é complexa, mas necessária. Precisamos organizar cadastros, projetos e seguir critérios para garantir justiça social”, explicou.
Com a Campanha da Fraternidade 2026, a Arquidiocese pretende mobilizar paróquias, comunidades e pastorais durante todo o período quaresmal, promovendo debates, formações e diálogo com autoridades.
“A ação concreta da Igreja começa ao dar visibilidade ao problema, iluminar com a Palavra de Deus e cobrar soluções”, afirmou Dom Juarez. Ele recordou ainda palavras de São João Paulo II sobre o tema da habitação, ressaltando que a falta de moradia é sinal de insuficiências econômicas, sociais e humanas.
A campanha também será fortalecida com a tradicional Coleta da Solidariedade, realizada no Domingo de Ramos, quando os fiéis são convidados a contribuir financeiramente para ações sociais.
Para o prefeito Silvio Mendes, a mobilização da Igreja é estratégica. “A Igreja é um instrumento forte para educar e chamar a atenção da sociedade. Resolver o problema da moradia exige responsabilidade de todos: poder público, instituições e cidadãos”, concluiu.
Ao final da solenidade, o arcebispo reforçou o apelo à união de esforços. “Que essa campanha desperte corações e provoque ações. Moradia digna não é favor, é direito. E promover esse direito é expressão concreta de fraternidade.”
Fonte: cidadeverde.com